A única maneira de se qualificar esse episódio é: uma história muito mal contada. Notebooks, contendo informações importantes, desaparecem. Pode acontecer nas melhores famílias, até entre as "sete irmãs", como eram conhecidas as líderes do ramo. Estranhos os detalhes que, aos poucos, surgem. Micros, discos rígidos e pentes de memória em contêineres empreendendo uma jornada de semanas, tudo isso para cobrir uma distância de algumas centenas de quilômetros. Dúvida: será que os segredos da Petrobras, se é que havia alguma informação "top secret", viajam em contêineres? É usual ouvir esse tipo de diálogo?: "Oi, precisamos de dados a respeito do campo Tupi e Júpiter". "Fique frio, mano, o que nos pede pesa uns 10 quilos, e estamos sem meio de mandar para você, mas estamos colocando num contêiner da Haliburton, "güenta" uns 20 dias".
Claro que essa conversa hipotética não aconteceu. No mínimo, essas informações já foram transmitidas a uma unidade central de processamento. Mas sendo assim, como é possível que ninguém possa dizer o que havia naqueles quilos de tecnologia "high tech"? Se, por algum acaso os dados contidos nos equipamentos extraviados são de conhecimento dos ladrões, e apenas deles, a Petrobrás precisa contratar uma consultoriazinha especializada em segurança e recuperação de dados, aprender uma porção de siglas, que, traduzidas para o linguajar leigo, dizem: o que é nosso não pode cair em mãos de terceiros.
A Petrobras ou a Haliburton, que não é uma empresa de fundo de quintal - não dispõem de um sistema de rastreabilidade das cargas, mesmo para casos "cabeludos" como a travessia desse percurso mais inóspito do que o do Rally Paris-Dacar? Caso afirmativo, como é possível não saber quando e onde os lacres foram violados?
Dependendo da informação, agora compartilhada com os ladrões, a avaliação do prejuízo é realmente complexa. Como, na versão oficial, não se sabe ao certo o que havia dentro dessas máquinas, logo ninguém tem a mais vaga idéia se o próximo leilão da ANP corre perigo ou não, se "o inimigo" leva vantagem nesse jogo de "batalha naval", ou se as senhas que protegem uma lista de aniversários dos funcionários garantem proteção total aos dados, resta um consolo. Tudo será apurado com o maior rigor,"duela a quien duela" – como dizia o outro - e os responsáveis receberão o merecido castigo. Na falta de um Jerôme Kerviel, Zé do almoxarifado pode colocar as barbas de molho.
Alexandru Solomon é autor de “Almanaque Anacrônico”, “Versos Anacrônicos”, “Apetite Famélico”.