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• Artigos - [09h11 01/09/2006]

O 2º reinado e o império do cinismo
por Alexandre Polesi

O presidente tem dito que no próximo mandato, se houver, reduzirá a carga tributária, que atingiu seu ápice em 2005: 37,7% do PIB.

Erigidos em política de governo, o ilusionismo e o auto-engano dominam o que restou do debate eleitoral. A esperança, derrotada pela mentira, terá de esperar outra oportunidade, se houver, ou um milagre.

A farsa naturalizou-se tanto que até a oposição evita falar em corrupção. Exemplar é a propaganda de Alckmin na TV: temos ali um candidato com vergonha de ter vergonha. Com medo de indignar-se.

A vitória ideológica do lulismo, portanto, é tão completa que Lula sente-se à vontade para proclamar sem freios a abolição dos critérios morais. “Política a gente faz com o que a gente tem, não com o que a gente quer”, disse o presidente esta semana.

É fácil concluir, com base no retrospecto, aonde ele quer chegar com seu pragmatismo desabrido.

Lula já chama de “companheiros” os aliados flagrados em casos de corrupção, e deixou de lado os últimos pruridos na matéria: “Ninguém deixará de ser meu amigo porque cometeu um erro”.

Ao mesmo tempo, o ex-ministro José Dirceu fala abertamente em recuperar, no novo Congresso, todos os direitos políticos que lhe foram cassados, por corrupção, no auge da crise. É bem provável que consiga.

E ambos terão a adulá-los os áulicos que sempre aparecem nessas horas de euforia, convocados à tarefa de perfumar o pântano oficial.
Aí estão imortais como Wágner Tiso, o novo menestrel do mensalão, ou a filósofa Marilena Chauí, para quem Lula hoje “é um estadista maduro”, ou o escritor Ariano Suassuna, segundo quem os escândalos são “apenas cortina de fumaça”.

E como Lula disse que a governabilidade do segundo mandato “virá das urnas”, pode-se antever o cenário de um presidente vitaminado pela aclamação popular submetendo à sua vontade um parlamento vergado pelos escândalos e pela impunidade generalizada.

Historicamente no Brasil, é receita de crise, mas Lula crê poder andar sobre as águas, e não está preocupado.

Já temos portanto o programa real do segundo reinado. Esqueça as tolices divulgadas pelo PT na terça, sob título “Programa de Governo”. Nem Lula perdeu tempo com elas. A um mês da eleição, o Brasil mergulhou de cabeça no império do cinismo.

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