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• Artigos - [21h26 15/06/2007]

Rio de Janeiro em clima de guerra
por Fátima Murad



Nem o glamour da candidatura do Cristo Redentor a uma das sete maravilhas do mundo, nem os preparativos para os Jogos Pan-Americanos, nem mesmo a decantada beleza do Rio de Janeiro pode esconder o cenário de guerra.

Alguns hospitais de emergência do Estado já mantêm observadores de plantão para acompanhar qualquer movimento diferente e alertar as equipes médicas. Dependendo da localização da unidade, o aviso vem do barulho de tiros e granadas na vizinhança.

Apenas no primeiro trimestre deste ano, 1.025 pessoas alvejadas, a grande maioria civis, foram atendidas nas principais unidades públicas do Estado, mais de 11 por dia, segundo dados recentes do Ministério da Saúde – sem contar aquelas que morreram antes de chegar a um hospital.

O mais grave nessa guerra não-declarada é que os médicos não dispõem sequer de formação acadêmica para atender as vítimas, atingidas por armas cada vez mais pesadas, e nem contam com apoio oficial para buscar uma especialização.

“Os casos que recebemos diariamente em nossos hospitais não são muito diferentes do que se vê hoje no Iraque, por exemplo”, diz o cirurgião Nelson Ramos, responsável por uma das unidades de emergência em depoimento ao Instituto Ary Carvalho, que estuda o problema da violência no Rio.

“A diferença é que lá”, diz ele, “a medicina americana bem ou mal levou para o deserto uma alta tecnologia de ponta que consegue milagres em recuperação.”

Segundo os especialistas, enquanto um tiro de revolver calibre 38 provoca uma lesão no corpo humano três vezes maior que o diâmetro da bala, a cavidade formada por um tiro de fuzil é 30 a 50 vezes maior do que uma bala comum. Assim, um tiro de raspão de um AR-15 no abdome pode causar a explosão de todo o intestino

Não há mais como ignorar essa realidade. Hoje o Brasil, particularmente o Rio de Janeiro, já aparece em primeiro lugar nas estatísticas oficiais de mortes de civis, posição ocupada até recentemente pela Colômbia, e até a década de 1990 por Israel.

Se estamos em guerra, o mínimo a fazer é nos prepararmos para enfrentá-la.



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