Artigos - [10h38 21/08/2008]
O que o mito da caverna tem a nos dizer
por Marco Roza
Marco Roza é jornalista e consultor estratégico. Trabalhou nos principais jornais paulistas e, em Londres, no Central Office of Information, órgão de divulgação do governo inglês. Escreve às quintas.
O mito da caverna que se acha em Platão, República, Livro 7, mostra personagens que trocam idéias amarrados dentro da cavidade, de costas para o mundo exterior, captando pelas sombras a aleatoriedade da vida.
De repente, estamos presos em nossas belas cavernas funcionais. Após alguns anos na mesma função, com o carro precisando ser trocado, mas ainda um usado confiável; o aluguel do apartamento cabendo dentro do bolso e nas férias anuais ainda sobrando alguns trocados, nos sentamos confortavelmente em nossas cavernas e achamos ridículas as histórias que nossos ex-colegas nos contam de um mundo empreendedor lá fora.
Até que as correntes que nos vinculam à caverna se rompem. Recebemos uma carta seca, direta: por motivos alheios à nossa vontade, a empresa não mais precisa de sua colaboração.
Saímos pelo mundo às cegas, ofuscados pela variedade de oportunidades, tentando entender como é possível haver um ambiente com dimensões diferentes das de nosso emprego.
Cambaleamos com Carlos Drummond de Andrade: “Quando nasci, um anjo torto/desses que vivem na sombra/disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”
Batemos cabeça na tentativa de nos encaixar no emprego que nos demitiu até que, após certo tempo (três meses, um ano, dois anos), entendemos o código do que é sobreviver aqui fora.
Voltamos a Drummond e vemos a porta: “Mundo mundo vasto mundo,/mais vasto é meu coração.” E assumimos renovados nossa posição no mundo, entendedores das sutilezas de nosso vasto coração e conseguimos que uma fração do mundo, no formato de uma vaga numa empresa, ou através da direção de um empreendimento, qualquer coisa, nos aceite de volta.
E sorrimos felizes. E várias vezes nos pegamos de novo confiantes nas sombras que se repetem nas paredes de nossa sala. Até que as correntes se rompam corroídas pelo tempo e sejamos obrigados a captar novas dimensões para sobreviver.
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