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• Artigos - [08h24 25/09/2006]

Uma gota d’água no meio do deserto
por Fátima Murad

Esse é o mal dos programas pontuais, que consideram apenas um aspecto do problema, e por isso dificilmente trazem resultados.

O Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego, lançado esta semana em Guarulhos pelo ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, é sem dúvida uma iniciativa louvável, na medida em que incide sobre um espectro da população que vive à margem do progresso econômico do município e é absolutamente carente de oportunidades.

Os sete mil jovens de 16 a 24 anos contemplados pelo programa pertencem a famílias com renda mensal per capita de até meio salário mínimo, que são muito mais numerosas do que se poderia esperar em uma cidade tão pujante como Guarulhos, uma das dez mais ricas do país.

Segundo o Censo 2000 do IBGE, 373.688 pessoas residentes no município com 10 anos ou mais de idade não têm rendimento, e 57.639 situam-se na faixa de rendimento nominal mensal de até um salário mínimo. Somadas, elas representam a metade da população residente nessa faixa etária.

O que pode significar o Programa para os jovens beneficiados? Certamente pode significar muito. É provável que boa parte deles tenha acesso pela primeira vez ao mundo da informática, graças às aulas de inclusão digital que fazem parte do módulo básico do programa. 

E é possível também que os cursos de qualificação que serão oferecidos por cinco instituições de ensino profissionalizante, parceiras do projeto, sejam de alguma ajuda na hora de disputar uma vaga no mercado de trabalho.

Mas sejamos realistas. Um curso de qualificação com duração de apenas seis meses é muito pouco para esses jovens que vêm de um ensino fundamental onde mal aprendem a dominar as normas básicas da língua e as operações matemáticas elementares. É querer que eles passem de um país arcaico para um mundo moderno e sofisticado sem muita mediação.

Esse é o mal dos programas pontuais, que consideram apenas um aspecto do problema, e por isso dificilmente trazem resultados. Se esses jovens não forem formados desde a base, não terão fôlego para enfrentar o deserto que se formou entre eles e a rica Guarulhos que, de resto, necessita de mão-obra verdadeiramente qualificada para prosseguir na rota do desenvolvimento.

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