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• Economia - [00h46 15/07/2008]

«Brasil será potência turística em 20 anos»
por Redação

Presidente da CVC vem hoje a Guarulhos e diz que estabilidade permitiu aos brasileiros planejar suas viagens

Em 15 anos, o empresário Guilherme Paulus transformou a CVC na maior operadora turística do Brasil. Do modesto escritório numa rua no centro de Santo André, no ABC paulista, surgiu um grande empreendimento com 248 lojas espalhadas pelo Brasil (quatro credenciadas em Guarulhos) e cinco escritórios no exterior.

A CVC transportou no ano passado 1,4 milhão de passageiros e espera chegar a 1,8 milhão este ano. Detém hoje 60% do mercado brasileiro de turismo e é responsável por 50 mil empregos diretos e cerca de 130 mil indiretos.

Paulus soube captar as novas tendências propiciadas pela estabilidade econômica, como os cruzeiros marítimos e os vôos charters para o turismo interno. Ele diz que, hoje, os brasileiros das classes C e B já conseguem planejar as suas férias e pagá-las a prazo.

Nesta entrevista exclusiva ao Diário de Guarulhos, Paulus antecipou ontem os temas que tratará em sua palestra prevista para hoje, a partir de 17h30, no Caesar Park de Guarulhos, sobre os desafios da indústria turística no Brasil.

Diário de Guarulhos - O que mudou nos últimos anos no turismo brasileiro?
Guilherme Paulus -
Nós tivemos uma ascensão de classes sociais. A classse D para a C, a C para a B e a uma parte da B para a A. O país vive um grande momento. A estabilidade da moeda e a valorização do real ajudaram muito o nosso crescimento. A desvalorização do dólar e o real forte proporcionaram muitas viagens de brasileiros ao exterior. Antes, há cinco ou seis anos, com o real desvalorizado, era muito vantajoso o estrangeiro vir para cá. Isso continua, porque o euro está muito valorizado. Mas, antes, havia um grande boom de estrangeiros, principalmente argentinos. Agora, ficou mais barato os brasileiros irem para a Argentina. Esse é um quadro que nós temos acompanhado muito de perto. A valorização da moeda e a ascensão das novas classes fizeram o turismo entrar no cotidiano dos brasileiros. As pessoas hoje até se programam para fazer uma viagem.

DG - Isso é novo no mercado?
Paulus
- Não era assim. Realmente, de três anos para cá é que as pessoas começaram a se programar. Veja o caso do advento dos cruzeiros marítimos. A CVC deu uma guinada muito grande quando trouxe para cá o “Blue Dream”, que é um navio revolucionário, em termos de modernidade. Era como um carro novo. O navio realmente despertou muito a atenção, e nós conseguimos transformar os cruzeiros marítimos quase como uma commodity.

DG - Qual é o perfil do novo turista de cruzeiros, são os ricos?
Paulus –
Não, é a classe média. Nós fizemos uma inovação nos cruzeiros, que é o “all incluse” (tudo incluído). Antes, o turista era muito explorado no navio. Uma água a US$ 2, uma cerveja a quase US$5, um uísque a US10/US$ 12. Quando colocamos o “all incluse”, caiu muito o preço. Hoje, aquele coquetel bonitão você já pode tomar, porque está incluso no preço. E os cruzeiros se tornaram um grande sucesso. Só a CVC tem seis navios na costa brasileira. Vamos transportar 180 mil passageiros nesta próxima temporada, contra 115 mil no ano passado.

DG - Que outra tendência nova pode ser percebida no mercado brasileiro?
Paulus –
O advento do turismo aéreo. Fomos pioneiros com os vôos charters (avião fretado) para dentro do Brasil. Antes, havia os charters para os Estados Unidos para a Europa. Nós, por semana, na baixa temporada, temos 60 aviões fretados com a TAM. Na alta, isso vai para 110 por semana. E 90/95% são para o Brasil.

DG – A tendência se inverteu, então?
Paulus –
Ah, sim. Hoje, um programa, por exemplo, de uma semana para Porto Seguro sai por R$ 800. A pessoa paga dez vezes de R$ 80. A estabilidade dá sempre a condição de o turista poder ser programar com antecedência. Ele se programa e até sobra um dinheirinho para gastar na viagem, depois.

DG – O Nordeste já oferece um serviço turístico de alta qualidade?
Paulus –
O turismo cresceu muito no Nordeste pelos próprios investimentos estrangeiros que foram feitos. Porto Seguro, Costa do Sauípe, Praia do Forte, Vila Galé, Porto de Galinhas, Natal, Fortaleza. Sol e mar são a grande procura.

DG – O que falta para o Brasil ter uma grande potência turística? Ainda estamos muito atrás até de Argentina e Chile.
Paulus –
Só agora o Brasil abriu um pouco os céus brasileiros para as companhias aéreas norte-americanas fazerem vôos para qualquer parte do país. As praias do Caribe, Cancun, e até as praias do próprio Oriente têm muito mais facilidades de vôos. Nós temos a tal reciprocidade. O próprio turista norte-americano poderia ter até um visto temporário, desde que tenha a passagem de volta. É preciso incentivar as pessoas a vir para o Brasil. Mesmo assim, o turismo já está em quarto, quinto lugar na balança comercial brasileira, atrás da soja, dos minérios e do petróleo, competindo com a indústria do automóvel.

DG - O apagão aéreo e a violência nas grandes cidades afetaram o turismo brasileiro?
Paulus –
A violência é um problema de desmando dos governantes brasileiros. O governador do Rio, Sérgio Cabral, acho que tem até agora o melhor trabalho feito na área de segurança. Mas, aí, caímos em outro buraco sem fundo, que é a dengue, que é um problema municipal. E falta a população também se cuidar. Isso atrapalha. E tem o apagão aéreo. A Infraero resolveu fazer shopping, e esqueceu das pistas.

DG – Qual é perspectiva do mercado latino-americano?
Paulus –
Os nossos vizinhos são ainda pobres. Mas o Brasil nunca trabalhou essa região. E há muitos peruanos, chilenos, uruguaios, etc, que viajam. É raro fazer esse trabalho junto a esse mercado. Estamos vendendo o Brasil na América Latina. Vamos trazer quase 100 mil latino-americanos este ano. Um de nossos projetos é o crescimento da América Latina. Em mar, o Brasil é espetacular. O peruano não tem praia, o argentino também não. O uruguaio tem só Punta del Leste.

DG- Vocês compraram há pouco tempo a companhia aérea Webjet. Qual a vantagem em ter uma companhia que atenda ao grupo CVC?
Paulus –
Adquirimos a Webjet para atender às necessidades do nosso mercado, principalmente para os vôos que partem do Rio de Janeiro com destino a Curitiba, Porto Alegre, Brasília e para rotas do Nordeste, já que a demanda está cada vez maior e, no futuro, seria difícil as demais empresas aéreas atenderem sozinhas às necessidades da nossa empresa.

DG- E aonde a Webjet quer chegar?
Paulus –
Contamos hoje com sete Boeings 737 e somos responsáveis por atender quase 2% do mercado. A Webjet ultrapassou a Ocean Air e somos hoje a quarta empresa aérea do país. Nossa estimativa é chegar a 10 aeronaves até o final do ano e, para os próximos 5 anos, atingir a marca de 50 ou 60 aviões e conseguir de 7 a 8% do mercado.

DG- Hoje o mercado turístico alcançou um ritmo que você acha adequado?
Paulus –
Nós estamos em evolução. Desde a criação do Ministério do Turismo, as atividades turísticas sofreram um upgrade muito grande. O turismo hoje tem metas, busca maior geração de empregos, criação de novos destinos turísticos. O Plano Nacional de Turismo é muito capaz e vem caminhando muito bem. Acredito que nos próximos 20 anos o Brasil será uma das maiores potências de turismo no mundo.



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