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• Exclusivo - [10h22 23/06/2008]

Tomie: "Tenho perspectiva de futuro"
por Paulo Carneiro

A artista plástica Tomie Ohtake falou sobre sua trajetória com exclusividade ao Diário de Guarulhos e Revista Guarulhos

A artista plástica Tomie Ohtake é uma das personalidades mais representativas da comunidade japonesa nas comemorações do Centenário da Imigração. Nascida em Kyoto, no Japão, em 1913, ela chegou a São Paulo em 1936, aos 23 anos, para visitar um irmão, mas acabou ficando. Seu plano original de voltar ao Japão foi frustrado pelo agitado cenário internacional que antecedeu a II Guerra Mundial.

Tomie casou-se com o engenheiro agrônomo Ushio Ohtake e teve dois filhos, os arquitetos Ricardo e Ruy Ohtake. Uma visita à exposição do pintor japonês Keisuke Sugano, em São Paulo, em 1952, marcou uma guinada na sua vida. Aos 39 anos, Tomie decidiu seguir o conselho de Sugano e transformar a pequena sala de visitas de sua casa em ateliê.

As primeiras obras retratavam a paisagem da Mooca, bairro onde morava, mas logo ela trocou a arte figurativa pela abstrata.  
Naturalizada brasileira em 1968, Tomie Ohtake criou uma escultura pública comemorativa dos 80 anos da imigração japonesa, comemorados em 1988, e foi condecorada com a Ordem do Rio Branco.

Agora no Centenário, deixa sua marca com o monumento à imigração colocado no Aeroporto de Guarulhos e em outra escultura, em Santos, onde desembarcaram os primeiros imigrantes.

Em entrevista exclusiva ao Diário de Guarulhos e Revista Guarulhos, Tomie Ohtake fala de sua trajetória, mas nega qualquer tendência saudosista em sua obra. “Tenho perspectiva de futuro”, declara a artista. A imagem mais forte que guarda do desembarque no Brasil é “a atmosfera amarela”.


Tomie Quase centenária, e de olhos voltados para
o futuro: artista erudita é vista por milhões nas ruas

DIÁRIO DE GUARULHOS  Qual foi a sua inspiração ao elaborar a escultura sobre o Centenário da Imigração Japonesa instalada no Aeroporto Internacional de Guarulhos?
Tomie Ohtake - A imigração japonesa é conhecida por ter sido realizada através do porto de Santos, mas o transporte hoje é avião, e a escultura comemorativa de Guarulhos está no aeroporto, mostrando o que significa o novo sistema no mundo.

DG -De que forma as suas memórias pessoais contribuíram para o projeto do monumento a ser inaugurado em Santos, onde desembarcaram os primeiros imigrantes?
TO - Passado é passado. Pretendo que a escultura leve a gente para a frente. Trabalho sempre com a perspectiva de futuro.

DG - Quais foram os aspectos mais marcantes da sua chegada ao Brasil, de navio, em 1936? O que ainda guarda na lembrança?
TO - A atmosfera amarela do Brasil, amarela do sol. 

DG - Existem semelhanças entre Kyoto, sua cidade natal, e a cidade de São Paulo, à qual sua vida e sua obra estão fortemente ligadas?
TO - Não lembro de semelhanças entre Kyoto e São Paulo. Kyoto é preservação e São Paulo é construção.

DG - A Sra. veio visitar um irmão, mas acabou ficando devido à II Guerra. Por ser japonesa, chegou a sofrer algum tipo de preconceito naquela época, já que o Japão integrava as potências do Eixo?
TO - Não me lembro de ter sofrido preconceito por causa disso, portanto acho que não sofri preconceito.

DG - No início da carreira, a Sra. teve uma passagem pela arte figurativa. O que a levou para a arte abstrata?
TO - É natural este caminho.

DG - Seu nome está entre os pioneiros da arte abstrata e do geometrismo no Brasil. A Sra. teve de enfrentar resistência dos conservadores para afirmar seu estilo avançado para a época?
TO - O abstracionismo foi durante muito tempo incompreendido, pois as pessoas queriam vê-lo com os instrumentos do figurativismo.

DG - Suas esculturas impressionam pela originalidade das formas e pela combinação de cores, também marcantes e originais. A razão e a sensibilidade têm o mesmo peso no resultado do seu trabalho?  
TO - Arte tem estes componentes que trabalham muito juntos. Essas coisas são percebidas mais pelos críticos do que pelo artista. Mas os dois componentes citados estão presentes na arte.

DG - Há quem afirme que sua obra sintetiza, nas artes plásticas, os elementos da tradição cultural do Japão e a policromia dos trópicos. Concorda?
TO - A minha obra é ocidental, mas devo ter muita influência oriental.

DG - A Sra tem diversas obras públicas expostas pelo país, como o painel na Ladeira da Memória, em São Paulo, uma obra na estação Consolação do Metrô, outra na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. A Sra. se considera uma artista popular?
TO - Eu sou artista “erudita”, não “popular”. A leitura das minhas pinturas é feita em museus, galerias e residências. As obras públicas são vistas por milhares ou milhões de pessoas. A arte pública, não popular, precisa ter o reconhecimento do público que a vê, sendo portanto diferente da obra que é vista em museus, que é a minha preocupação com os trabalhos mencionados.



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