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• Opinião - [08h44 05/09/2006]

Elegia fúnebre
por Da Redação

Senador se desalenta com os duros tempos que correm

No penúltimo dia de agosto, num discurso tão contundente quanto melancólico, o senador Jefferson Péres (PDT-AM) anunciou o fim de sua carreira política, após o término de seu mandato, em 2010.

As frases de Péres calaram fundo no mundo brasiliense, ao menos entre aqueles que não perderam a capacidade de ruborizar. O senador amazonense é um dos raríssimos políticos em atividade de quem se pode dizer, sem ironia, ser verdadeiramente uma referência moral do parlamento.

Homem calejado pela idade e pelas decepções, respeitado até por seus inimigos e sobre quem nunca se levantou qualquer suspeita de agir em desacordo com o interesse público, Péres produziu uma peça de desencanto e amargura.

O senador desistiu da vida pública. Enojou-se da corrupção, erigida em valor universal pelos atuais donos do poder. Indignou-se com a pusilanimidade do Congresso. Horrorizou-se com a impunidade generalizada e reiterada a cada dia.

E cometeu o supremo ato de coragem para um político profissional: falou mal do povo, isto é, do eleitor, que parece na iminência de conceder um atestado de honestidade aos larápios do mensalão e do valerioduto e àqueles que se beneficiaram do maior esquema de malversação de recursos públicos e de tráfico de influência da história brasileira.

Eis o que disse no plenário do Senado:
“Dizem que político não deve falar mal do povo. Eu falo, eu falo. Parte da população compactua com isso. É lamentável. E não é por desinformação. Não é só o povão, não. É parte da elite, inclusive intelectual. Compactuam com isso porque são iguais, senão piores.  Vou continuar nessa vida pública? Para quê? Para mim, chega!”

Nesses tempos de triunfo das nulidades, de desalento dos bons, de exaltação do cinismo e de glória dos espertalhões, suas palavras não poderiam ser mais duras, nem menos verdadeiras.

Soaram como a prévia elegia fúnebre da triste democracia que temos e dos duros tempos que correm.

 



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