O governador Cláudio Lembo descobriu agora que tem muita cocaína na bandeja da burguesia. Seria por este motivo que o crime campeia em São Paulo, sob sua plácida bonomia e diante daquele olhar sempre um tanto perplexo com as asperezas do cargo.
A entrevista que concedeu na segunda-feira mais uma vez atesta a notável capacidade do governador de recobrir, com gordas camadas de retórica, sua inapetência para a liderança do Estado e para as tarefas concretas do exercício do poder.
Na visão do governador, como a classe média e a elite paulista não fazem outra coisa senão esvair-se no consumo de drogas, o crime organiza-se em função desta vasta demanda, e não há nada que se possa fazer para reprimi-lo.
Em seu curto mandato, Cláudio Lembo acostumou-se a surpreender os paulistas com um rol absolutamente inesperado de culpados pela escalada do crime. E reivindicou para si um papel supostamente pedagógico: o de chamar a atenção para a “responsabilidade” das elites pela suposta crise social brasileira.
Mas o próprio Lembo é um dos representantes dessa elite contra a qual investe. E, na condição de governador, tem como poucos os meios e os poderes para mudar essa ordem injusta.
Segue-se portanto que suas palavras devem ser tomadas menos pelo que pretendem ser e mais pelo que de fato são: um exercício de auto-crítica.
Ou, se quiserem, apenas como uma sessão de terapia em voz alta, na qual os remorsos que tenha cultivado durante anos, por não poderem mais ser reprimidos, são expiados em público, num espetáculo de purga dos pecados passados pela exposição das próprias fraquezas.
Convenhamos: é muita psicanálise para pouca ação. Transferir para as elites e às classes médias em geral – ou seja, a categorias abstratas - as responsabilidades concretas que lhe cabem na condução da política de segurança pública de São Paulo é apenas uma curiosa forma de evasão.