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• Opinião - [10h31 28/08/2006]

Gatos e lebres na campanha da TV
por Fátima Murad

Enquanto os partidos políticos e o governo não levam a sério a promessa de investir na reforma do sistema eleitoral, a responsabilidade dos eleitores é ainda maior.

Você votaria num candidato só porque ele aparece no horário eleitoral montado num avestruz? Ou porque ele capricha nos trejeitos e promete que vai arrasar em Brasília? Ou porque é bonito, ou porque é cômico? 

Tudo é possível. Que o diga o dr. Enéas, eleito deputado federal por São Paulo, em 2002, com mais de 1,5 milhão de votos, a maior votação da história para o cargo, sem ter qualquer relação com os problemas e as aspirações do Estado que o elegeu.

A votação do dr. Enéas é a prova cabal de que a televisão e o rádio contam muito na hora de eleger um candidato, principalmente aos cargos legislativos, onde a concorrência é maior. 

Neste ano, em São Paulo, há 1.090 candidatos para 70 cadeiras na Câmara dos Deputados e 1.774 candidatos para 92 cadeiras na Assembléia Legislativa. Acrescente-se a isso que a disputa ocorre em um universo de 28 milhões de eleitores – dos quais 700 mil só em Guarulhos. Como atingir esse eleitorado se não for pela TV ou pelo rádio?

Essa é talvez uma das distorções mais graves do sistema eleitoral brasileiro, a causa dos elevados custos de campanha e um dos principais alimentadores da corrupção. Gastam-se fortunas com publicitários e marqueteiros para apresentar uma boa imagem ao público, embora, paradoxalmente, nem sempre as campanhas vitoriosas sejam as mais caras. Como é o caso do próprio dr. Enéas, que apostou numa fórmula simples e barata.

Enquanto os partidos políticos e o governo não levam a sério a promessa de investir na reforma do sistema eleitoral, a responsabilidade dos eleitores é ainda maior.

É preciso estar de olhos bem abertos para não votar em aventureiros e oportunistas. Para não descarregar a decepção com os atuais parlamentares optando por candidatos exóticos. 

Para não reeleger quem renunciou ao cargo para não ser cassado. Para não dar carta branca a criminosos que buscam proteção na imunidade parlamentar.

Se o eleitor escolher seu candidato por aquilo que diz ou aparenta no horário eleitoral, não custa nada buscar saber mais a seu respeito. Na era da informação, não dá para comprar gato por lebre.

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