É compreensível a reação do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, ao acusar a “ditadura da mídia” no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal.
Dirceu é um profissional da desinformação. Indiciado por corrupção ativa (por unanimidade) e por formação de quadrilha (por 9 a 1), o ex-“capitão do time” exerce apenas o seu direito de espernear.
Incompreensível foi a atitude do ministro do STF Ricardo Lewandowski, ao reclamar em voz alta, num restaurante, de que o julgamento de que participou teria ocorrido sob pressão da imprensa.
“Decidimos com a faca no pescoço”, disse a um interlocutor, segundo a Folha de S. Paulo.
A mídia teria “acuado” os magistrados, influindo no resultado final, cuja “tendência” - nas suas próprias palavras! - seria “amaciar com o José Dirceu”.
Tais declarações são de uma gravidade inédita. E não pelo que foi dito sobre a mídia, mas sobre a “tendência a amaciar”.
Quem tentou “amaciar com José Dirceu”? A mídia? Certamente, não é o caso. O governo? O PT? Havia uma trama? O ministro tem agora o dever de explicar o que disse.
Seus pares, é claro, rechaçaram tais declarações e reafirmaram a isenção de seus votos, isolando-o.
Cabe lembrar que essa mesma mídia, há 15 dias, havia revelado que a maioria dos ministros do STF estava convicta de que seus telefonemas eram grampeados pelos órgãos policiais do governo.
Ora, isso sim seria “pôr a faca no pescoço” dos magistrados. Mas o ministro preferiu criticar a mídia.
E não por ter mentido, mas por ter reproduzido fielmente suas inconfidências. A questão é que tais inconfidências – captadas em local público - tinham claro interesse público.
O episódio apenas confirma que a mais alta corte da Justiça, como qualquer outra instituição (inclusive a mídia), também pode ser formada por seres frágeis, confusos e até despreparados para exercer seus cargos.
Consciência coletiva
Cidade é resultado das ações de cada um de nós
Boa parte das queixas da população sobre os problemas de Guarulhos diz respeito a lixo e entulho acumulados em calçadas e terrenos.
É o que fica evidente na coluna De Olho nos Bairros, que este jornal publica todos os dias.
Cada cidadão tem o direito de contar com serviços públicos de qualidade. Para isso, paga seus impostos.
Todos esperam receber o adequado atendimento e circular tranqüilamente pelas calçadas, as quais devem estar em boas condições.
Basta um ligeiro passeio por Guarulhos, mesmo pela área central, para se constatar que a realidade é bem outra.
Mas é preciso reconhecer que, além da visível incapacidade das autoridades de impedir ou desestimular comportamentos indevidos, muitas mazelas da cidade decorrem da ação dos próprios cidadãos.
A coleta de lixo é feita regularmente por empresa contratada pela Prefeitura e os dias e horários são conhecidos de todos. Nada justifica, portanto, que bares, lanchonetes e lojas despejem lixo nas calçadas.
Embora ainda em número insuficiente, a Prefeitura instalou vários pontos de coleta de entulho e outros materiais, desde que em pequenas quantidades e entregues pelos próprios interessados.
Para materiais de maior porte, há o serviço de caçambas particulares, cujo local de descarga deve ser fiscalizado pela Prefeitura.
Muitos moradores, no entanto, contratam serviços de remoção de entulho, sem se preocupar em saber onde ele será despejado.
Outros, sem a menor cerimônia, põem restos de construção em qualquer lugar, às vezes, perto de suas próprias casas. Resultado: poluição, sujeira, ratos, insetos, etc.
E mais: a conservação de calçadas é de responsabilidade de cada imóvel, mas muitas estão danificadas.
É preciso admitir que há um déficit de consciência coletiva em Guarulhos. Melhor: falta consciência individual. Porque a cidade é a soma do comportamento de cada um de seus habitantes.