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• Revista Guarulhos - [15h18 08/06/2006]

O doce $abor da Páscoa
por Augusto Pinheiro

No período de Páscoa, a preparação de ovos artesanais e caseiros de chocolate é uma garantia de renda extra para muitas famílias guarulhenses

Cristóvão Colombo, o descobridor da América, aportou na ilha de Guanaja, no Mar do Caribe, no ano de 1502. Lá, um povo místico e bastante religioso recebeu a esquadra do navegador genovês. Os astecas haviam descoberto, séculos antes, as favas de cacau, e com elas fizeram um líquido escuro – batizado de tchocolatl. Em bom português: chocolate.

No século XVI, o conquistador espanhol Hernán Cortés foi apresentado ao chocolate na corte do grande rei Montezuma II, no México, e o levou para a Europa. Começava a popularização do produto. No princípio, tratava-se de uma bebida amarga e fria, e levava pimenta e outras especiarias. Uma vez no Velho Continente, o chocolate recebeu açúcar, canela e baunilha. O gosto doce tornou o produto uma espécie de “supérfluo indispensável”. É difícil encontrar alguém que não goste de chocolate; é muito mais fácil encontrar um chocólatra.

Na opinião do presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Carlos de Oliveira, esta Páscoa será a melhor dos últimos cinco anos. Abril poderá ser tão bom que os supermercados irão recuperar o saldo negativo acumulado ao longo do ano. A Páscoa de 2006, diz Oliveira, deve aumentar em 10% ou 15% as vendas e o faturamento dos supermercados em relação a 2005, e os preços nas gôndolas, segundo ele, estão iguais aos do ano passado. Esse otimismo se reflete nas encomendas de ovos de chocolate dos supermercados, em média 14% maiores que as de 2005.

Mas isso não é tudo. Nesta época do ano, um incontável número de pessoas aproveita para fabricar ovos de chocolate em casa e obter um ganho extra. A Revista Guarulhos foi conversar com mulheres que estão buscando formação profissional num programa gratuito de geração de renda. Elas querem ser empreendedoras.

Conheça, ainda, o exemplo de uma guarulhense que há oito anos dá as boas-vindas à Páscoa, reforçando o orçamento da casa. Com esse dinheiro, ela mantém duas filhas na faculdade – e acalenta sonhos ainda mais elevados. Esqueça a dieta por alguns minutos e viaje pelo mundo maravilhoso da produção de chocolate caseiro.

Com a mão na massa

Uma vez por semana, a dona-de-casa Clarisse Theodoro sai do Jardim Fortaleza, onde mora. Ela interrompe a produção e as vendas de chinelos de tecido para participar de uma oficina de culinária no bairro de Torres Tibagi. Clarisse é uma das 90 mulheres que participam do Programa CLIC - Criando no Lar da Irmã Celeste.

Em 2000, quando foi criado, o CLIC era um projeto voltado para as mães, tias e avós das crianças atendidas pela Casa. Como a procura cresceu, em dezembro de 2004, tornou-se um programa de ocupação e geração de renda para mulheres da comunidade. Além das aulas práticas, há atendimento psicossocial e orientação teórica com foco no empreendedorismo. Esse é um Programa em parceria com a Visteon, o FMAS – Fundo Municipal de Assistência Social e o Sebrae.

O Clic visa a atender às diretrizes do Sebrae. Segundo a analista Ana Cristina Alexandre de Souza, o Lar da Irmã Celeste não queria fazer um curso que apenas ensinasse a cozinhar. “A coordenação do Lar desejava que as alunas se tornassem empreendedoras, por isso demos total apoio ao projeto”, afirmou. As entidades que tiverem interesse em conhecer a proposta do Sebrae podem contatar a analista Cristina (fone 11-6440.1009).

A Reportagem chegou na oficina durante a produção de bombons de chocolate. Para entrar na cozinha industrial, montada com muito capricho pela Casa, existem algumas regras básicas: deve-se usar uma touca e avental, as unhas precisam estar cortadas e sem esmalte, vestir jeans e calçar tênis, não usar aliança, anel nem relógio.

Era a última terça-feira de março, e nesse dia sete mulheres, das mais variadas idades, estavam fazendo os bombons. A turma atual tem 15 alunas. O período de atividades é das 8h às 17h, que inclui café da manhã, almoço e café da tarde.

É específico para mulheres, com nove horas de aprendizado em um único dia da semana, o que diminui o custo de transporte. O Programa oferece o material didático, a formação, o certificado de conclusão de curso e atividades externas semestrais. As beneficiárias têm idade superior a 18 anos, em situação de vulnerabilidade social, são responsáveis pela manutenção da casa, estão fora do mercado do trabalho formal, com baixa escolaridade e sem formação profissional específica.

A coordenadora de comunicação do Lar da Irmã Celeste, Andressa Risso Miguez, é uma entusiasta dos assuntos da Casa. Está no DNA: Andressa é bisneta da fundadora do LIC, Maria Margarida Fernandes. “Nós temos contado com o apoio de várias empresas, em parcerias de grande sucesso. Mas há espaço para muitas outras”, assegura.

PARA SABER MAIS O Lar da Irmã Celeste foi inaugurado em 25/12/1940. É uma entidade de assistência                                                                                                                                            social que presta atendimento gratuito a crianças, adolescentes e famílias. Durante seis décadas, serviu como abrigo para pessoas carentes. A partir de 2000, mudou sua vocação e colocou todo o foco na área educacional, oferecendo atendimento socioeducativo para crianças de 4 a 6 anos, que recebem educação formal (cerca de 100 crianças); e de 7 a 11 anos, que  têm aulas de dança, musicalização, informática, leitura e artes (120 crianças).  Endereço: avenida doutor Timóteo Penteado, 3.035 – Torres Tibagi – fone 6455.3535. Na internet: www.lardairmaceleste.org.br

Testemunhos

Sueli Figueiredo é musicista, mas trabalha há dois anos produzindo e vendendo pães-de-mel no bairro do Gopoúva. Conheceu o Programa CLIC por meio de anúncio que viu no comércio.“Há grande perspectiva de renda. Aos poucos, minhas expectativas estão sendo satisfeitas. Aqui aprendo sobre produção e venda – na teoria e na prática”.

Alessandra Soares de Oliveira, casada, um filho de 5 anos, mora no Jardim Cumbica. A última ocupação registrada foi como operadora de caixa, mas está fora do mercado. Vive da produção de sorvete de massa. “Considero o programa muito bom: as receitas são simples e aqui se aprende a usar corretamente o microondas.”

Maria José Silva Costa, solteira, Jardim América; já atuou como segurança, mas também está fora do mercado. Então, passou a fazer e vender peças de crochê. “Eu espero muito desse curso para aperfeiçoar o que já sei fazer. ”

Clarisse Theodoro de Souza Conceição é uma dona-de-casa do Jardim Fortaleza. Faz chinelos de tecidos e os vende de porta em porta e pelo telefone. “Estou adorando. Eu tinha o desejo de fazer curso de culinária, com a esperança de obter um ganho extra. Aqui estou.”

Maria Petrina é diarista em casas de família. Ela é mãe de Maycon, que desde 1999 é uma das crianças atendidas pelo Lar da Irmã Celeste. Maria já fez curso de artesanato, brinquedos e panificação. “Quero aprender tudo o que me for possível”.

A monitora aprendiz é Maria José Santana de Freitas, 23  anos, que terminou  o curso no ano passado. Teve bom aproveitamento e foi convidada para orientar as novas alunas. “Antes de concluir o curso, eu comecei a fazer em casa tudo o que aprendi aqui. Foi um sucesso. Aprendi sobre o custo do produto, embalagem, definição de valores, pesquisa de preços...”.

A experiência da empresária

Quando chega a época de Páscoa, a dona-de-casa Maria Dalva, de 46 anos, dedica praticamente todo o seu tempo para confeccionar ovos, trufas e cestas de chocolate. Isso há oito anos.”No início, não foi por necessidade, mas porque a família é muito grande e eu fazia para presentear. Depois, passamos por uma crise financeira. Resolvi fazer um curso e me preparar para produzir ovos em ‘grande’ escala”, relembra.

Hoje Maria tem uma carteira de clientes – amigos e fiéis. Mas nem sempre foi assim: “No primeiro ano, eu visitei várias empresas para apresentar meu produto. As pessoas degustavam, gostavam e faziam o pedido”. Normalmente, Maria Dalva realiza tudo sozinha. Em 2002, no entanto, houve o auxílio de Daniela, 24 anos, estudante do 4º semestre do curso de Engenharia Química de Produtos. “Naquele ano, chegamos a tirar cinco mil reais líquidos (ganho total, já descontadas as despesas), o que representa uma venda de aproximadamente 600 produtos. Mas, para isso, trabalhamos dia e noite”, diz, a futura engenheira.

A estrutura, no entanto, não é tão simples quanto se possa imaginar. A tela do computador da família mostra uma planilha de Excell. Os dados do ano passado são compatíveis com os de uma empresa. Maria Dalva já contabilizava 50 pedidos de ovos nos primeiros dias de março. “Isso porque não estou fazendo propaganda para as amigas”, comenta. Nem precisa, as trufas que produz o ano todo deixam mais doce a vida da clientela.

O marido, João Carlos, 49 anos, está aposentado, mas atua como corretor de imóveis. “Os negócios andam meio fracos”, lamenta Maria. Então, a saída é produzir trufas e ovos de chocolate, o que também permite que Fernanda, segunda filha do casal, possa cursar jornalismo.
As mãos e o coração da dona-de-casa transformam a matéria-prima em amor e felicidade para a clientela. “Adoro trabalhar com chocolate, sinto muito prazer. Desta forma, o resultado flui naturalmente”. Esse resultado, aliás, pode ser medido pelo número de reclamações que já recebeu: zero.

Maria Dalva, mãe de mais dois filhos (Patrícia e Vítor), ainda tem um sonho dourado. “Quero montar uma bomboniere. Sei, porém, que tudo é bastante difícil no País – há muita burocracia e os juros são altíssimos”, concluiu a empresária.

 



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